quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A importância da Visão Periférica na aprendizagem de novas habilidades no Handebol



Maria Rita Cardoso Gomes (mrita.fisio@terra.com.br)


O objetivo deste estudo foi verificar através de revisão de literatura a importância dos estudos sobre a Visão Periférica como fator superador no desempenho de jovens atletas. Nos esportes em equipes se torna muito importante a tomada de decisão para um conjunto de sincronismos que irão fazer parte do bom desempenho no jogo. Durante a aprendizagem, os estímulos da Visão Periférica podem direcionar novos comportamentos dos jovens aprendizes, os quais acarretarão em um menor gasto energético e na melhor aquisição das habilidades motoras.
Na formação de jovens talentos deve-se integrar o desenvolvimento de todas as suas capacidades perceptivas, o que logicamente, irá desencadear um melhor desempenho global. No entanto, pouco se observa sobre a relevância do treinamento da Visão Periférica nas atividades e esportes coletivos, especificamente no Handebol. Na fase de aprendizagem das habilidades motoras, os professores focam suas informações através de instruções verbais, demonstração e observação, desencadeando assim, estímulos visuais, auditivos e sensitivos. A instrução verbal nem sempre é suficiente para formar a idéia inicial de uma ação, o que é essencial para a realização de qualquer movimento. Públio et al. (1995) ressaltam que o processamento de informações em crianças pode refletir uma representação inadequada ou incompleta dos aspectos espaciais e temporais, se a ação for representada apenas de forma verbal. Neste contexto se explica a insuficiência das habilidades verbais ainda não suficientemente desenvolvidas nas crianças. Dessa forma, a instrução verbal em uma tarefa motora complexa, pode sobrecarregar o sistema de processamento em crianças, o que dificulta o entendimento da ação e sua conseqüente execução. Na utilização da demonstração, por vezes o professor realiza o próprio movimento para ensinar seus alunos. O aprendiz reúne informações sobre a meta da tarefa e seu modo de execução (TONELLO & PELLEGRINI, 1998). Essa informação pode então tornar-se alvo de ações reprodutivas, gestos que buscam repetir modelos ou ações, sem estímulos criativos e perceptivos na formação da habilidade ou gesto esportivo. Isso indica que não existem representações cognitivas que poderão servir de referência para a produção e percepção do movimento (ASHFORD, DAVIDS & BENNETT, 2006). Haverá pouca percepção e influência do ambiente e dos elementos associados (bola, trave, jogadores). Apesar das informações visuais facilitarem a elaboração de um plano motor inicial de maneira mais eficiente do que as informações verbais, as informações perceptivas relacionadas ao movimento, ao ambiente e aos elementos ficam ainda deficitárias. A aprendizagem por observação de um modelo é capaz de formar representações cognitivas importantes do comportamento observado, as quais podem servir de referência para a produção do movimento, bem como para sua correção (MENDES, 2004).
Estímulos relacionados às capacidades perceptivas tem sido alvo de inúmeras investigações por vários autores como: Isaacs (1983); Pinaud (1994); Willians et al (1999); Vélez (2000); Moreno (2001); Albernethy (2001); Boutcher (2002); Pérez e Gabiondo (2005); Damásio (2006), os quais apresentaram propostas que modificam as ações pedagógicas na aprendizagem dessas capacidades em diversas áreas do conhecimento.
Pinaud (1994) direcionou seus estudos através do treinamento e estímulos da percepção visual e da criatividade na forma de atuar, propôs o termo “ver e criar” ou “não olhar em nada para tudo ver”. Posteriormente esses ensaios e estudos se tornaram um método de aprendizagem no Handebol. Destaca-se pelo método, o período critico para os estímulos visuais entre 08 e 15 anos, pois o autor afirma que a informação visual pode ser levada a uma cota muito alta em pouco tempo, o que vem de encontro com os processos oferecidos pela Plasticidade cerebral da faixa etária. Outra forma de estimulo proposto pelo método foi a ruptura com a seqüência progressiva do simples para o complexo. Desta forma, coloca-se o aprendiz em grau de dificuldade pelo breve prazo de resposta e múltiplos parâmetros presentes. Para o autor o esquema seqüencial analítico do cérebro esquerdo torna-se inútil e prejudicial à aprendizagem, pois os processos neurológicos relacionados à capacidade perceptivo motora, não entram no campo da consciência.
Para Greco (2006), o jovem aprendiz domina o pensamento abstrato que facilita a tomada de decisão, o qual depende muito da atenção. No aprendiz que se encontra no período operacional concreto, a concentração não ocorre com qualidade, se distraindo com facilidade porque os neurônios não estão totalmente mielinizados, o que provoca um impulso nervoso mais lento. Por esse motivo, o aprendizado da tática para os aprendizes deve respeitar o período operacional formal, a partir dos 12 anos.
A Visão central é aquela na qual a imagem cai no centro da retina e é responsável por muitos detalhes e, opostamente, a Visão Periférica é aquela que se forma na periferia da retina e que é responsável por perceber a presença de objetos e movimentos, com pouca iluminação, nada nítido e sem detalhes (GUYTON, 1988). Dessa forma, percebemos a importância do treinamento da Visão Periférica para aquisição de novas habilidades no Handebol, pois através de vários estímulos distribuídos de forma aleatória, desenvolve-se a agudização dessa capacidade perceptiva.
Nas tarefas motoras abertas, onde o ambiente muda constantemente, um mínimo detalhe pode fazer a diferença em uma situação de jogo, pois os elementos do ambiente são os principais processos que formarão uma rede de informações do cérebro em uma ação motora. (MAGILL, 2000; SCHIMIDT, 1992). Dessa forma se caracterizam vários esportes coletivos.
A Visão Periférica possui maior campo visual (180°) e, embora perdendo nos detalhes, ganha nas relações e inter-relações das imagens e dos movimentos no contexto geral, fazendo com que o jogador exerça maior controle sobre o ambiente. Basicamente, essa capacidade perceptiva quando desenvolvida adequadamente, se torna um mecanismos diferencial para os jovens aprendizes realizarem tarefas mais complexas, com maior destreza, como responder as diferentes situações de jogo no menor espaço de tempo e tomar as decisões mais adequadas para o sucesso de suas ações.
A esse processo relacionado com as estratégias específicas que regulam uma orquestração de tarefas cognitivas e respostas motoras que visam a melhor resposta, chamamos de Metacognição (FLAVEL J. H.& WELMAN H. M., 1977). Esperamos dessa forma, estimular o treinamento da Visão Periférica dos jovens aprendizes, aguardando uma clara eficácia técnico-tática que se refletirá nas ações do jogo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASHFORD, D., BENNETT, S. J., & DAVIDS, K. (2006) Observational modeling effects for movement dynamics and movement outcome measures across differing task constraints: A meta-analysis. Journal of Motor Behavior, 38, p. 185–205.

FLAVELL, J. H. & WELLMAN, H. M. (1977). Metamemory: In R. V. Kail & J. W. Hagen (Orgs.), Perspectives on the development of memory and cognition (pp. 3-33). Hillsdale, N.J.: Erlbaum.

GUYTON, A. C. (1988). Fisiologia humana. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 1988. 565p.

GRECO, P. J. (2006) Conhecimento tatico-tecnico: eixo pendular da ação tática (criativa) nos jogos esportivos coletivos. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 20, supl. 5, p. 210-212.

MAGILL, R. A. (2000). Aprendizagem Motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blücher.

MENDES, R. (2004). Modelo ou Modelos? O que mostrar na demonstração; In: BARREIROS J. et al.
Desenvolvimento e Aprendizagem: perspectivas cruzadas. Cruz Quebrada, Lisboa, FMH Edições p. 95-117.

PINAUD PHILIPPE. (1994). Perception et creativita. A propos d 'stud rejoint sur le handball. Toulousaine, France.

PÚBLIO, N.S., TANI, G., MANOEL, E.J. (1995) Efeitos da demonstração e instrução verbal na aprendizagem de habilidades motoras da ginástica olímpica. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, 9(2): 111-124 jul./dez.

SCHMIDT, R. A. (1992) Aprendizagem e performance motora: dos princípios à prática. São Paulo: Melhoramentos, 293p.

TONELLO, M.G. M & PELLEGRINI, A.M. (1998). A utilização da demonstração para a aprendizagem de habilidades motoras em aulas de Educação Física. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, 12(2), p.107-114, jul./dez.

Endereço para correspondência:
Maria Rita Cardoso Gomes: mrita.fisio@terra.com.br/mritacg@hotmail.com/SKYPE: mritacg1